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Suave aula de sensibilidade

Norma Telles

Katherine MansfieldNos Contos de Canterhury, do escritor inglês Geoffrey Chaucer (1342-1400), uma personagem, a certa altura, faz preciosos comentários sobre a condição feminina: "Oh Deus, se as mulheres escrevessem, teriam coisas diferentes a dizer". Implícita nessa fala há um invencível sentido da própria autonomia, da interioridade, da autoridade da experiência. Cinco séculos depois, foi exatamente a partir de uma experiência profundamente vivida de sua subjetividade que a escritora neozelandesa Katherine Mansfield narrou suas histórias, num estilo muito peculiar, com tons poéticos.

Nascida em 1888, Kathleen Beauchamps (este era seu verdadeiro nome) foi educada na Inglaterra, onde posteriormente se radicou. Escreveu para revistas literárias e em 1919 publicou seu primeiro livro. In a German Pension. Em 1920, com Bliss, alcançou a fama. Quando. em 1922, aparece Garden Party o coro de aplausos torna-se unanime e sua consagração é definitiva. No auge do sucesso. sobrevém uma tuberculose que a faz peregrinar pela Suíça, Itália e França, em busca de um clima melhor. Inutilmente. Katherine Mansfield morre em 1923, aos 34 anos de idade. Como legado, deixa 88 contos, cartas e um diário que será postumamente editado pelo critico John M. Murry, com quem foi casada.

Bliss (Felicidade) foi publicado no Brasil nos anos 50, na época em que a Globo editava autores clássicos traduzidos por grandes escritores. A tradução belíssima. impecável, é do escritor gaúcho Érico Veríssimo, autor de best-sellers nacionais como O Tempo e o Vento. Incidente em Antares e Solo de Clarinete. Reeditado pela Nova Fronteira no início dos anos 70, este volume está, há tempos, esgotado. Volta agora com o titulo Aula de Canto, numa tradução correta que mistura alguns contos de Felicidade e outros inéditos entre nós.

Casa de Bonecas retrata o ambiente acanhado da cidade natal da autora: em torno de uma brincadeira, explodem os preconceitos e fixações de uma sociedade provinciana. A Festa no Jardim cria ambientes da Nova Zelândia. No transcurso de um episódio corriqueiro, a festa, abre-se a questão da vida e da morte. Em A Mosca, um rápido e derradeiro sobrevôo, o vislumbre dos horrores da guerra que tanto angustiou e deprimiu a escritora em seus últimos anos.

Os críticos acham difícil definir a arte de Katherine Mansfield, considerada a maior contista de língua inglesa de sua geração. Para qualquer leitor, em todo caso, sobressai sua sensibilidade, sua extrema delicadeza e sua habilidade de dizer muito em poucas palavras. Palavras vivas, espontâneas, simples. Personagens reais, incrivelmente reais em sua trivialidade. Uma aula de canto.




IstoÉ 17/4/1985

 

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