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Círculos do viver

Norma Telles

Nélida PiñonNuma entrevista em 1978 a escritora carioca Nélida Piñon declarou: "É ético para mim escrever bem, denunciar realidades que não foram denun-ciadas, trazê-las à tona". Escrever bem significa para ela subverter a sintaxe oficial, buscar inovações num mundo construído por desigualdades, onde a linguagem é definida e controlada pelo poder e pelo elemento masculino. E não há dúvida de que, em mais de 20 anos de carreira, Nélida Piñon rompeu com os discursos e temas canônicos e tornou-se uma de nossas melhores escritoras.

A Doce Canção de Caetana é um livro excepcional tanto pela história quanto pela linguagem e o cuidado nos menores detalhes. Caetana é uma atriz mambembe que ao passar por Trindade, pequena cidade do interior do Brasil, vive um intenso caso de amor com Polidoro herdeiro da família mais rica do local. Ela parte sem explicações e o amante, assim como vários outros habitantes da cidade que participaram da trama, passam vinte anos esperando sua volta. A história é ambientada nos anos 70, época do governo Médici, e o tricampeonato mundial de futebol forma o pano de fundo.

Caetana escreve a Polidoro dizendo que chega em breve e o alvoroço é geral, os sonhos antigos se reavivam. Caetana era atriz de circo desde menina. Órfã, foi criada por um tio que lhe incutira o preceito: "Nunca renuncie ao sonho, menina. Esta é a convicção que nos salva”. Todas as personagens estão vinte anos mais velhas, cada uma com seu sonho provocado por Caetana, que, no entanto, não permite que introduzam em sua vida a tragédia ou fracasso, sem a sua licença. Ela vai comandar o espetáculo porque tem seu próprio desejo e por isso voltou. Veio encenar seu triunfo de fantasia, um triunfo que não obtivera pelas estradas empoeiradas do país. Impõe a construção de um teatro ilusório onde as personagens se tornam atores de uma peça sem texto, cada qual movida pela própria ilusão, encenando para a glória de Caetana.

São dois círculos que se imbricam. O conservador, da vidinha familiar, e o marginal, do circo e do teatro, das atrizes e prostitutas. O circulo marginal torna-se o centro da narrativa. O espetáculo, dionisíaco, a doce canção de Caetana, invertem a ordem estabelecida, fazem com que os contornos das diferenças deixem de existir.

A narrativa é envolvente, carregada de alusões literárias, cinematográficas e mitológicas. Incita o leitor a buscar os múltiplos significados e os símbolos. É sempre fascinante, às vezes hilariante, às vezes cruel e desnudante. É tradicional pelo que mostra da vida real e inovador porque rompe a ordem simbólica prevalente numa das mais fortes e belas canções que temos ouvido nos últimos anos.




IstoÉ 30/12/1987

 

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