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A bastarda

Norma Telles

Violette LeducA escritora francesa Violette Leduc (1907-1972) é pouco conhecida entre nós, embora seu primeiro trabalho, L'Asphyxie (A Asfixia), editado por Albert Camus, seja de 1946. O último. Le Taxi, é de 1971. Sua obra mereceu a ad-miração da crítica e de intelectuais do porte de Jean-Paul Sartre e Jean Genet. A Bastarda, de 1967, como quase tudo o que escreveu, contém elementos autobiográficos. Como diz Simone de Beauvoir no prefácio. a narração mais assusta do que agrada. mas é a demonstração de uma vida que retoma seu destino.

A personagem, que tem o nome da autora, nasce numa aldeia, filha de mãe solteira. Seu anjo protetor é Fidéline. avó que morre cedo mas lhe dá o afeto que resguardará seu equilíbrio. Violette é profundamente marcada pela culpa que vê no olhar gélido da mãe. Culpa-a por ter nascido, por ser doentia, por ser mulher, enfim, por ser um erro vivo. Toda a sua vida será uma tentativa de se anular.

Violette Leduc é o símbolo da asfixia feminina e do aprisionamento a um corpo. É através do corpo que lhe chegam as sensações do mundo, que ela traduz como sentimentos. É através do corpo que ela se comunica com o exterior e com as outras personagens. O erotismo tão decantado de sua obra não é, por isso, gratuito, mas conseqüência dessa relação básica. A narrativa mostra a personagem em luta com um mundo que a fere, e a impossibilidade é seu grande amor. Nunca está satisfeita, mas sempre disponível.

A autora não tenta melhorar, na personagem, sua própria imagem. Não julga a si mesma, não julga os outros. Constrói um livro que, embora de difícil leitura, é interessante e provocador. "No fundo do desespero tocamos a paixão de viver", diz ela, "e o ódio não passa de um dos nomes do amor”.




IstoÉ 01/10/1986

 

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