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Duas mil léguas pelos sertões & Duas mil léguas pela cidade

Norma Telles

I promise to show you a map you say but this is a mural then yes let it be these are small distinctions where do we see it from is the question

Adrienne Rich



A arte da fuga e o canto de Manon

O emprego da palavra voiage, desde o século XVII, designa tanto o deslocamento quanto seu relato, sugere assim uma relação estreita entre a experiência vivida e a narrativa que, na cultura Ocidental, se renova sem cessar desde as viagens fundadoras contadas por Homero ou Virgílio, como em inúmeros mitos da Antiguidade Clássica. À sombra dessas estórias, deliciosas sem duvida, e tão repetidas, estão os relatos de viagens feitos por mulheres desde tempos antigos – não escutamos as vozes de Europa, das mulheres de Troia, de Helena, Ariadne, Medeia, mas o que delas se diz..

O que é um récit de viagem? É tanto uma narrativa de busca quanto de exílio, descoberta ou comemoração; tanto viagem de longo curso quanto um breve deslocamento com inúmeros desdobramentos; há viagens culturais como as de Flaubert, científicas como as de Darwin e até mesmo as viagens que ultrapassam as fronteiras do planeta. Há viagens de exploração direcionadas por uma missão, como as do doutor David Livingstone ou as de D. Leolinda Daltro que vamos seguir neste texto;

“O etnógrafo Ocidental, o poeta modernista expatriado, o escritor de relatos populares de viagens, e o turista podem todos participar da fabulação que torna os deslocamentos, narrativas, sem questionar as bases culturais, políticas e econômicas de suas diferentes profissões, privilégios, meios e limitações. Imigrantes, refugiados, exilados, nômades e sem teto também se movimentam para dentro e para fora desses discursos como metáforas, tropos ou símbolos, mas raramente como produtores históricos reconhecidos de discursos críticos (Kaplan:1996:2)”.

Em um belo poema, “Questões de viagem”, Elizabeth Bishop assinala um processo paradoxal, o da dupla implicação do viajar que pode trazer uma nova luz não só ao Aqui como também ao Lá e, ao mesmo tempo, perturbar preconcepções confortáveis, pois, qualquer que seja a viagem, ela é sempre também um giro interno em torno de si mesmo.

A narrativa de viagem, informe ou multiforme, se mostra difícil de cercar. Parece feita de migalhas de impressões, descrições, digressões. E é sempre fascinante. Modos diversos de se movimentar levam a modos diferentes de escrever: o caçador nômade, lembra Ginzburg, e a mulher coletora, seguiam animais pelas pegadas, decifravam signos na vegetação e repassavam suas leituras do meio aos companheiros, foram assim os primeiros narradores. Os descobridores, por seu lado, cinzelam signos sobre as terras novas esculpindo cruzes e erigindo monumentos (Butor:1958.) Já os exploradores traçam mapas e como o poema de Rich faz lembrar, as diferentes narrativas assinalam perspectivas diversas a partir das quais são vistas as paisagens e se formadas as falas.

Em consequência, as abordagens desse gênero literário são díspares, colocando em primeiro plano as ambiguidades e as suspeitas que por longo tempo levantaram - e que permanecem quando a viajante é uma mulher. Leolinda Daltro, por motivos de saúde e de pressões políticas que a amedrontaram, apresentou a memória de seus anos de sertão de forma fragmentada e não usual. Ela apresentou todos os documentos, cartas, registros em cartório que coletou e montou o texto como se fosse um álbum de moça que colhiam poemas, citações, saudações, mas diferente daqueles a sua Memória agrupa recortes de jornais, caricaturas, noticias, documentos de cartório, cartas, homenagens. “Cada documento, até os que, à primeira vista, parecem de nenhuma importância, vale um tesouro de verdades e tem seu lugar distinto na história de minha excursão às tribos selvagens (CIB:XX)”.

Ao livros de viagem, de modo geral, testemunham, antes de qualquer coisa, a efervescência do pensamento Ocidental provocada pela experiência que foi, ou é, o encontro com o outro. Experiência esta que desde o século XVI, durante a expansão colonial Ibérica, narra um confronto brutal entre culturas e mundos diferentes onde se misturam violência física e psicológica.

O horror, que Conrad inscreveu para sempre no coração da escuridão - e Freud no coração do continente escuro que é a mulher - decorre, em tempos Modernos, desse encontro/desencontro e tem como pressuposto certo tipo de homem que personifica uma ideia pretensamente universal: religião, civilização, democracia conforme a época. No momento histórico em que o mundo todo parecia pertencer ao “Oeste”, a literatura de viagem, diários, cartas, recordações, combinada com relatórios profissionais dos administradores de diásporas ou imigrações em massa, produziu um material que influenciou a ciência, a literatura e as políticas externas durante várias gerações.

O ‘viajante’ legendário que essa literatura fixou foi o homem ‘branco’, introspectivo, culto. Na prática essa posição central de viajante foi ocupada também por inúmeras mulheres, desde a antiguidade e especialmente em grande número a partir do século XIX; também o foi por pessoas das mais várias etnias, classes ou nacionalidades.

A figura heroica, porém, continuou sendo, nas mentes e nas representações Ocidentais, a do ‘viajante esclarecido’. Lembrando Rich: um lugar no mapa é também um lugar na história. Os locais e as viagens estão inevitavelmente ligados com questões de gênero, raça e classe. A distância percorrida leva a marca das tensões; o gênero não só tem impacto na mobilidade como também produz localizações.

Cenário

No Brasil, a partir de 1870, surgem alterações que vão se fazer sentir no regime de trabalho, com a Abolição, na política, com a proclamação da República embora a reorganização da sociedade não tenha mudado substancialmente as estruturas. A expansão rápida do capitalismo no campo gerou focos de embate entre populações indígenas e empreendedores. Fez-se frequente a denuncia contra chacinas de índios e casos de colonos mortos pelos nativos. Parecia que a fronteira que separava uns e outros estava em constante alteração e perene guerra. Até o final do Império o trabalho de integração dos indígenas à sociedade conquistadora estivera a cargo da Igreja Católica e os missionários eram subvencionados pelo governo.

Com a República e a introdução do conceito de catequese laica, a Igreja perdeu substanciais privilégios, ao mesmo tempo em que, com a extinção do trabalho escravo, crescia a necessidade de mão de obra livre e as frentes de expansão prosseguiam em ritmo acelerado; em São Paulo elas se defrontaram contra os Kaigang ou índios coroados enquanto em Santa Catarina esbarravam nos Kokleng. Os índios defendiam seu habitat, os estrangeiros queriam legitimar, pelas armas, a terra que haviam adquirido por titulo de propriedade, enquanto o capital buscava terras para suas empresas.

Ataques dos índios eram noticiados na imprensa com sensacionalismo, propiciando fosse criada a imagem do selvícola como animal feroz e traiçoeiro. Havia outras faixas de tensão e em alguns aldeamentos dos padres capuchinhos, na região central, houve levantamentos que receberam ampla cobertura da imprensa que apresentava ao publico somente a versão dos conquistadores. A omissão do Estado nas primeiras décadas da República agravou a situação e deixou mais a vontade os interesses econômicos privados na ocupação das terras ditas devolutas.

As diferentes ideias, as matérias dos jornais fizeram com que as populações urbanas se envolvessem nas discussões. Teve inicio um acalorado debate sobre os direitos dos indígenas e parcela das camadas médias das cidades passou a apoiar sua causa. De modo geral pode-se dizer que existiam três posições em relação ao assunto: a religiosa mais conservadora ligada a oligarquias; a secular que refletia interesses de intelectuais e profissionais liberais como a professora Leolinda Daltro. Essas duas correntes propunham a incorporação do índio à sociedade divergindo, no entanto, em relação ao método a ser empregado. A terceira posição, identificada com a vanguarda das forças de expansão, exigia medidas imediatas, extermínio ou cativeiro, para que o progresso pudesse seguir em frente (Gagliardi:1989:134).

Partida

Em 1896, O País noticia a chegada à Capital de um grupo de índios cujo cacique era o Xerente Sepé, originários da Aldeia Providência, em Goiás, à margem do Tocantins. O grupo viera ao Rio de Janeiro conversar com o Presidente e solicitar ferramentas, roupas, armas e instrutor de ensino para a obra de civilização. Na cidade foram encaminhados para uma delegacia onde ficam muito mal acomodados. Sepé trouxera consigo companheiros de outras etnias, todos provindos dos mesmos aldeamentos feitos por missionários que os haviam abandonado. O artigo do jornal afirma que a aldeia era formada por bons trabalhadores e que Sepé fala “excelente português e tem excelentes maneiras”. Sepé declarou ao jornalista que sua aldeia era ‘deveras invejável’ sem noticia de crimes ou infidelidade cunjugal, faltava apenas quem lhe ensinasse a escever.

Os visitantes estavam mal acomodados na delegacia depois da longa viagem de mais de seis meses; a sala onde ficavam não tinha janelas, era humida e eles dormiam no chão sem mesmo poder tomar um banho. Começavam a se arrepender de terem vindo, prossegue o articulista, pois nada parecia resultar daquela jornada. É então que surge em cena Leolinda Daltro:

“[os visitantes] feriram largo a imaginação meridional e a alma generosa e meiga de uma distinta professora fluminense, D. Leolinda de Figueiredo Daltro. A seus olhos de mulher de instrução, espirito aberto para a fantasia pelas leituras romanescas de viagens sertanejas por longes terras [...] a história desses simpáticos índios, a organização exemplar de sua aldeia; a doçura de seus costumes verdadeiramente admiraveis, tudo, tomou o carater de uma sedução irresistível (CIB:9 grifos meus)”.

Os termos que o artigo atribui á Daltro como imaginação meridional, isto é, facilmente impressionada pelos sentidos; fantasias a partir de leituras romanescas e sedução devido a doçura dos costumes dos índios carentes, apontam o mal estar do articulista diante da pessoa que aceitou ser mestra do grupo e segui-lo de volta a aldeia. Os mesmos atributos eram de modo geral vistos como relativos às mulheres, facilmente imprecionáveis, guiadas pelas sensações, ou por leituras fantasiosas que não entendiam bem, e seduzidas por tudo que era dócil como uma criança ou então frágil e sofredor. Por esses as mulheres em geral abidicavam de uma vida própria. Logo a seguir, o jornalista evoca a santa mãe, sempre disposta a sacrifícios, no caso despertada pelas “palavras dolorosas do sincero Sepé”. Ao fazer isso, está colocando um paradoxo sem solução na cabeça das pessoas de então: como uma santa mãe atende aos pedidos de socorro de desvalidos, mas para isso precisa abandonar seus próprios filhos? Ela então se torna o quê, um monstro? O fato de ser professora dava aquela mulher um espaço, e talvez uma segurança, que fazia com que os termos fossem encadeados de maneira sutil, mesmo assim deixando transparecer tensões.

Quem era Leolinda Daltro? Nascida na Bahia, criada por uma avó, era descendente de Tupis e Timbiras, como gostava de contar, tinha cinco filhos e vivia no Rio de Janeiro.

“Sou professora catedrática, aqui, no Distrito Federal, profissão cujos misteres eram limitadíssimos no tempo em que fui nomeada. O programa primário era, naquela época, por demais deficiente; o ensino limitava-se à leitura, escrita, gramática, e às quatro operações fundamentais da aritmética [...] Achei que isso era pouco e que eu podia, como professora, ampliá-lo, o que fiz, inaugurando um novo regime escolar. Iniciei, portanto, o ensino de ARTES E PROFISSÕES (IFB:7)”.

É assim que Daltro se apresenta em reunião de 1909. No exercício da profissão a educadora introduziu outras novidades no ensino: exposições pedagógicas, a primeira ainda no Império, algo que nunca se vira no Rio e foi muito bem recebida pelo publico e pelas autoridades, inclusive foi visitada e recebeu louvores da Princesa Isabel e seu consorte; passeios com as crianças para que entrassem em contato e amassem “a natureza”; visita a exposições e museus ou presença ativa em festividades nacionais e homenagem a vultos nacionais.

Sevcenko (1992) chama a atenção para a mobilização dos corpos nos eventos públicos devido a reorganização social e dos sistemas simbólicos. A sociedade da época buscava forjar novas identidades coletivas, nacionais, impondo uma disciplina física que poderia também agir sobre a massa urbana.

A educadora quando da chegada do grupo de Sepé ao Rio, já iniciara sua carreira pública; atuando no curriculum escolar, reformara para uso nas escolas que dirigia, o minguado programa oficial de atividades para as crianças. Ela elaborara ainda um programa mais geral, visando garantir a subsistência dos alunos (curso técnico) e uma formação mais humanista, ensinar amor pela natureza e pelas artes. O objetivo era formar um cidadão preparado para a vida, ativo e consciente das necessidades da nação. É essa mesma ideia de formação de cidadãos respeitáveis e bem adaptados que irá estender aos indígenas e às mulheres em campanhas muitas vezes paralelas. Mas como menciona na apresentação de 1909, desde seu inicio da sua vida pública, provocou inveja e maledicência por causa do sucesso obtido.

“Estava eu, regendo a Escola mista de Santa Izabel no Matadouro de Santa Cruz” continua Daltro, quando notou que muitas crianças não frequentavam a escola porque estavam ajudando os pais na fábrica. Instituiu então, para elas, e para operárias, cursos noturnos que prosseguiram mesmo depois de ter sido transferida para outras escolas. Esses cursos estavam fora do programa oficial, não recebiam recursos e ela os mantinha por conta própria.

A mulher que se comoveu com o pedido de auxílio dos selvícolas que vieram na cidade, assim, já não se enquadrava na moldura de pureza passiva, ideal do mundo burguês. Era uma educadora participante que planejava ações que lhe pareciam importantes para as pessoas, para a coletividade, para a nação. Em 1896, “achava-me dirigindo a ESCOLA BARRA DA GÁVEA quando delineei a realização dos meus ideais de civilização indígena (IFB:9)” Era preciso atende-los, pensava. Ela não parte impulsionada por uma imaginação meridional, mas sim por um plano singular de catequese laica que traçou e pretendia executar.

Daltro oferece seus préstimos ao governo em troca da manutenção de sua vaga de professora com salários. O Presidente Prudente de Moraes recusa, “por duas razões: 1 por falta de verbas e 2 por ela ser mulher pelo que é forçoso que não parta (IFB:10)”. Ela respondeu-lhe, “minha resolução é inabalável. No meu coração de brasileira há verba suficiente”.

Por todo lugar por onde passar, a cisão entre os que dizem: volte!, e os poucos que bradam, avante!, se repetirá como ocorreu primeiro no Rio de Janeiro; se alguns se dispõe a ajudá-la, outros indagarão: por que uma mulher bem colocada na vida, se dispõe a arriscar tudo em uma aventura arriscada e exêntrica? Para os caricaturistas da época foi um pitéu que exploraram incansavelmente. O sarcasmo e o ridículo acabaram por pesar sobre ela.

Daltro vendeu tudo que pode para ter um mínimo para iniciar a jornada. É algo interessante de se anotar a respeito de mulheres viajantes: em geral elas não recebem financiamentos de governos, Sociedades Geográficas ou tais ao contrário dos homens que sempre puderam contar com algumas verbas e apoios e desfrutar do prestígio de seus feitos.

O Jornal do Brasil sugere a possibilidade de abrir uma lista de subscrições, mas os dias se passam e nada acontece. Os companheiros de Sepé desanimam e “ganharam a estrada e seguiram pelo trilho de ferro”. O jornal pressiona o governo, lembrando como é distante Goias, como as comunicações são morosissimas, mas o governo recusa doar os poucos recursos solicitados. Afinal, os homens públicos importantes não terão simpatia pela empreitada da educadora e farão pressão para que ela retorne.

“Os óbices apresentados à pretenção de D. Leolinda Daltro que, cheia dos mais santos intuitos, deixa o seu lar e seus filhos aos quais estremece de amor e sujeita-se às agruras de uma viagem quase impossível, são improducentes” escreve o articulista no dia 2 de agosto de 1886. Daltro decide partir “na arrojada e delicada missão de educar os indios Xerente”, e segue na companhia de seu filho mais velho, Alfredo, que deixa o posto nos Correios para acompanhá-la e de um menino de onze anos, ex-escravo. A imagem dessa jovem mulher vestida com simplicidade, tendo um adolescente e um menino exescravo a seu lado, acompanhados por um grupo de selvícolas indo palmilhar os sertões em busca de um espaço outro mais livre e igualitário, causou-me profundo impacto quando pela primeira vez com ela me deparei e provocou a curiosidade de ler os indícios em suas pegadas.

Daltro foi para São Paulo de onde continuaria por Minas até Goias e seguiria o Araguaia. Na cidade que crescia e se modernizava ela vai tentar angariar meios. Foi saudada pela imprensa e um jornal abre uma lista de subscrições, logo preenchida extensamente. Na cidade duas correntes de opinião logo se formaram meio as elites e as classes médias: a primeira a favor da jornada contava com nomes proeminentes na educação e na medicina como a renomada Dra Maria Rennotte, que faz uma doação de cem mil reis e o Dr Horácio Lane, fundador do colégio Mackensie que contribui com 200 mil reis mais uma mesada de 50 mil reis pela Escola Americana cujos professores e alunos também participaram. Lane lembra alguns nomes de senhoras que se dedicaram a civilização de índios norte americanos e comparando-a a elas incentiva-a; ele também consegue várias cartas de recomendação, aceita no internato da Escola Americana dois filhos de Daltro, e idagando por todo o canto expõe-lhe objetivamente as condições que iria encontrar pela frente. O grupo dos mais modernos, constituído por intelectuais e membros de profissões liberais - muitos deles protestantes - apoiava a viagem.

Outro grupo, que se empenhava em fazer Daltro retornar ao Rio de Janeiro, ao lar e aos filhos, era formado por pessoas proeminentes da sociedade paulista, conservadores católicos como D.Veridiana Prado, Martinho Prado, Fernando Chaves, Elias Fausto, estudantes goianos que estavam na cidade e outros. Em janeiro de 1897, Daltro em viagem recebe carta de Affonso Arinos, parte desse grupo, dizendo que em conversa com amigos resolveram indagar-lhe mais uma vez se não queria desistir de seu “ato de loucura(CIB:73)”, da ideia temerária de seguir viagem. Caso quisesse voltar ao Rio de Janeiro e ao lar, poderia contar com o apoio deles para repor no lugar todas as comodidades que havia perdido pelo esfacelamento de sua casa; propunham-se ainda a restituir as contribuições.

Por seu lado, Dr João Mendes e Dr Garcia Redondo se propõem a defendê-la nos jornais e o primeiro ainda sugere tomar para si a educção dos filhos dela. Agrega Arinos a sua missiva outra carta, de D. Veridiana, referente ao mesmo assunto. D. Veridiana, supondo que Daltro estivesse arrependida porque chorara ao se despedir dos filhos, oferecia-lhe, pela terceira vez, a quantia de dez mil reis para que voltasse à escola e à sua casa no Rio e terminasse de criar os filhos. Menciona que outras pessoas iriam ajudá-la financeiramente. Conta como João Mendes está penalisadissssimo pois considerava suicidio o que ela pretende intentar. Reclama ainda do fato dela ter internado os filhos em escola protestante e termina pedindo que se ela não aceitasse nehuma de suas sugestões, ao menos aceitasse a comapanhia de um sacerdote para acompanhá-la. Daltro não aceita.

É bom ressaltar que todas essas pessoas, e outras ainda que diziam coisas parecidas, queriam bem a educadora, e eram por ela respeitados e considerados bons amigos, tanto que agradece-lhes em seu livro sobre a catequese. Eles a apreciam, mas gostariam que permanecesse ‘nos eixos’, que não se metesse em empreitadas perigosas que, pensavam, não lhe diziam respeito. Outro que se empenhou em trazê-la de volta foi o senador Quintino Bocaiuva, padrinho da filha caçula de Daltro que ficara sob sua proteção. Ele recorreu as suas amizades influentes na tentativa de demovê-la de seu intento. Assim, escreveu para o presidente do estado de São Paulo, Campos Salles, pedindo que fizesse cessar a animação da imprensa local, como ele fizera calar a do Rio, para não enconrajá-la.

Vereda pelos sertões

Daltro estava decidida e seguiu em frente; em março de 1897 ela está em Uberaba e constata que os recursos não haviam sido suficientes, ou não haviam chegado. Os animais para transporte que compraram eram imprestáveis e ainda havia contas de pastagem muito altas. Como se isso não bastasse, foi em Uberaba que ela começou a ser perseguida pelos frades.

Recebe uma carta da amiga, Madalena Noronha, que está na capital: escreve que o senador Quintino soubera “das perseguições que os frades de Uberaba lhe estavam movendo, mas que em logar de sentir, estimava, porque à força das perseguições, talvez fizesse com que você voltasse do caminho (CIB:94)”.

Urge que volte e tire os dois filhos, Oscar e Leobino, do colégio protestante e os coloque de volta no colegio católico fluminense. As mesmas ideias e pedidos acompanham, sem serem atendidos, a rota divergente de Daltro. A amiga ainda informa que um teatro do Rio de Janeiro levara uma peça onde ela “apparecia num ridiculo medonho, vestida de pennas, dançando e fallando asneiras com os indios”. Mais uma vez, o zeloso senador Quintino interviu, foi à polícia e fez “retirar a peça do cenario, suspendendo o espetáculo (CIB:95)”.

Em novembro Horacio Lane incita-a a partir, pois a estação das chuvas está se aproximando o que tornaria muito mais dificil o percurso. Que não se esqueça das cartas de recomendação que levava para Goiás, escreve. As polêmicas nos jornais continuam, uns dizendo que irá morrer na mão dos selvagens que no Brasil são indomáveis, tendo escapado de todas as tentantivas dos santos missionarios educá-los. Ainda é tempo, volte! Mas o perigo que Daltro corria não vinha de tribos selvagens mas sim “do convento que lhe preparava outras ciladas”. Em Palma, um promotor anota em seu caderno “Caminhae Senhora! Não temaes a mão homicida deste degenerado [frei Antonio de Ganges] “levita do senhor”, porque as graças de Deus vos tornarão sombranceira a todas essas miserias humanas (CIB:167)”.

“O que a dedicação dos selvagens, com a sua natural estrategia, conseguio impedir, guardando-me à vista, dia e noite, amarrando-me muitas vezes, quando desconfiavam de alguma cilada, nas altras copas das arvores emquanto dançavam e cantavam ao redor da fogeuira, para desviarem a attencção dos assassinos que me seguiam por toda a parte (CIB:XIX)”.

De outra feita, ao ser avisada de que dois assassinos a seguiam, com calma respondeu ao vaqueiro que a alertava: “Não tenho medo. Deus está commigo e os meus indios saberão livrar-me como já o têm feito por centenas de vezes (CIB:267)”. O perigo rondava os caminhos pelos quais se embrenhava; ela chegou a retirar com as mãos as obturações de ouro de seus dentes para não ser identificada pelos assassinos.

“D.Leolinda tem encontrado innumeros e grandes perigos e difficuldades no nosso sertão, onde se têm desenvolvido ocntra ella uma perseguição terrivel, inoculando-se no espirito suggestivel dos sertanejos a idéa de matal-a, para isso espalhando-se por toda a parte ser ella o Anti-Christo, de cujas mãos o dinheiro recebido se transforma em folhas seccas...(CIB:149)”.

Em janeiro de 1899 ela está em Goias, em maio em Conceição do Araguaia, no Pará. Pelos caminhos encontrou também pessoas que a ajudaram, algumas ao preço da própria vida, relata. Visitou vários povos indígenas e constatou que não haviam feito nenhum progresso embora estivesse subordinados ao sistema de catequese. Denunciou vários frades como aproveitadores, como gananciosos que ficavam com as verbas e nem mesmo conheciam as aldeias. “Os frades, que nas margens dos rios Araguaia e Tocantins, só têm procurado enriquecer os cofres de suas ordens, fazendo dos índios apenas instrumentos de seus desígnios e de seus interesses, algumas vezes infames (CIB:375)”. Dizia que nem mesmo para a comunidade católica local serviam para alguma coisa.

Conclui que não eram boas, como diziam nas cidades, as condições de vida das tribos e por isso pensa ser preciso fazer algo. Resolveu fundar uma colônia à margem do rio Araguaia, perto de Leopoldina, quase fronteira com o Pará, “sob as vistas immediatas do governo de Goyaz, onde não ha catechese, nem missões religiosas (CIB:XIX)”. Abrem ruas simétricas espaçosas e constroem um grande rancho, a escola onde são matriculados 82 indigenas cujos nomes “tenho em meu arquivo”. À essa grande República indígena dá o nome de “Colônia Joaquim Murtinho”.

Faltam-lhe meios para terminar as obras então resolve voltar ao Rio de Janeiro para angariar recursos. Voltei da “minha temerária excursão às aldeias indígneas das margens do Araguaya, Tocantins, sertões de Goyaz e Mato-Grosso, onde me demorei cerca de cinco annos, pesquisando, estudando, doutrinando e soffrendo (CIB:XVII)”. Percorrera umas duas mil léguas.

Travessias pela cidade

O Rio de Janeiro de onde partira como uma heroína, não a recebe como tal, “me encontrei sob uma atmosfera pesada de indiferentismo e frieza, e, após, alvejada por uma saraivada de ridículos, partida de todas as classes sociais, principalmente da imprensa, com que me procuraram ferir e anniquillar(CIB:XVIII)”. O que a dedicação dos selvagens conseguira impedir, prossegue, conseguiram efetuar seus inimigos na cidade, fazendo “jesuiticamente” um trabalho eficaz de derrocada de seu nome.

Daltro vai tentar, durante anos, ser nomeada catequista laica de alguma aldeia indígena, nunca o conseguiu, como não conseguiu os recursos para voltar ao Araguaia e continuar a Colônia. Certo tempo depois, porém, um grupo de índios enviados por Sepé chega ao Rio para buscá-la. São logo aprisionados e as noticias sobre eles estampadas em jornais.

Ela vai ao encontro deles, consegue levá-los para sua casa e, durante anos, os educa, para serem cidadãos, visando provar que poderiam contribuir para a nação. E o faz as próprias custas “chegando a extremos de sacrifícios materiais e sofrimentos morais”, mesmo continuando a ser motivo de chacotas e ridículos, como por exemplo, no livro de Lima Barreto, Numa e a Ninfa (1915), e nas caricaturas e na imprensa.

Sete índios ficam então com ela na cidade, passaram muita dificuldade, passaram fome; ela lançou mão, escreve, de todos os recursos da inteligência em tais apuros para que não sucumbissem a míngua. “Mas não esmoreci um só dia siquer”. Nunca recebeu qualquer ajuda, e ao todo educou quinze índios, ensinando-lhes a ler e escrever, velando por seus direitos civis e políticos.

Daltro caminha com os índios pela cidade, se apresentam em solenidades, são convidados ao Jockey e a imprensa destaca que “são índios do Brasil elegante. E por isso podiam aparecer a toda gente. Só o que tem de extraordinário é a cabelleria, aliás muito bem tratada. Não sabem os detratores [...] que esses cabellos têm razão de ser [...] prova de que o cabloco não se confundiu ainda com o branco (CIB:489)”.

Ensinou-lhes profissões. “Dirigi-me a todos os magistrados que se sucediam na patriótica missão de governar a Nação; a todos os Congressos de Notabilidades, até ao Pan-Americano; a sociedades filantrópicas e a todos os poderes da Republica [...] pedindo, implorando mesmo, proteção para os pobres brasileiros, donos expoliados deste paiz, e a resposta era, quase sempre, o despreso, a chacota, o riso (CIB:XXV)”.

A afirmação pessoal, a agressividade em se impor, tudo que caracteriza a ‘ação significativa’ masculina, se torna monstruosa nas mulheres, por não ser feminil e, portanto, nos desenhos dos caricaturistas ou sob a pena dos satíricos pululam mulheres monstro que desobedeceram as regras. Basta lembrar de Mary Wollstonecraft chamada pelo escritor Horace Walpole, “a hiena de anáguas”, expressão que combina dois aspectos dos ataques misóginos, o que afirmava que palavras e ações na mulheres eram distorções ou eram destruídas e antagonizadas em frases exemplares e caricaturas.

Daltro leva suas ideias para fundação de sociedade protetora ao professor de Antropologia do Museu Nacional. Ele se propõe a ajudá-la apresentando-a a um membro do IHGB, mas ali não pode apresentar suas notas por ser mulher e os membros presentes as várias reuniões as quais comparece acabam se aliando a facção religiosa. Em todos os Congressos ou nas reuniões, ou em festas, lá ia Daltro com o grupo de indígenas. Algumas vezes eram bem recebidos, como por exemplo, no congresso pan-americano de 1906 quando entregou uma carta a Joaquim Nabuco que mais tarde comentou ter achado muito interessante aquele grupo.

Em 1906 passou a participar da União Cívica Brasileira para orientar uma expedição para Bauru onde havia luta entre frentes de expansão e Kaingang. Fez vários discursos na associação afirmando a importância daquele trabalho na incorporação do índio à sociedade e para impedir massacres. Em reunião no Cassino Hespanhol, fundou nesse mesmo ano um Gremio Patriótico Leolinda Daltro associação que tinha como objetivo incorporar o índio à República (CIB:481). O trabalho de agitação desenvolvido por Daltro se adensou a partir do segundo semestre de 1908: ela fundou a Associação de Proteção e Auxilio aos Selvícolas do Brasil.

Em 1909, paralela a essa luta, Daltro funda uma associação de defesa dos direitos das mulheres. “As sete horas da noite de vinte e três de dezembro de 1909, na sala de frente do segundo andar do prédio número setenta e sete da Praça Tiradentes, presentes as senhoras Donas: Leolinda de Figueiredo Daltro [lista o nome de todas as presentes] Eu venho, pois aqui, perante esta ilustre assembleia feminina - A PRIMERIA DE QUE HÁ EXEMPLO EM NOSSO PAIS, expor meus projetos e os meus ideais, na esperança de conseguir que deles compartilhem as minhas dignas conterrâneas! (IFB:6)”.

Em 1910 participou do Primeiro Congresso Brasileiro de Geografia, na comissão etnográfica, e mais uma vez foi impedida, na ultima hora, de apresentar seu relato; ela então redigiu uma memória e propôs que o congresso recomendasse catequese laica e, finalmente, uma proposta sua foi aceita (CIB:548). Data desse mesmo ano a fundação do Partido Republicano Feminino. Daltro batalhou pelo voto e se fez presente, sempre com um grupo de colaboradoras, a todas as votações sobre a questão. Organizou uma passeata de mais de cem mulheres com o mesmo fim e se candidatou a deputada na Constituinte de 1934; não foi eleita. No santinho da campanha está estampado seu retrato – uma velhinha vestida de negro, usando um chapéu (Mott:1986).

Em 1911, foi fundadora e diretora da Escola de Ciências Artes e Profissões Orsina da Fonseca; a 1a. Escola de Enfermeiras laicas do Brasil, da Cruz Vermelha e o Clube de Tiro Rosa da Fonseca. Durante a Primeira Guerra mobilizou um batalhão feminino que com uniformes rústicos, empunhando fuzis, fazia treinamentos no campo de Santana (Mott:1986).

“Está claro que o estilo de ação política de Leolinda Daltro era peculiar. Invadia espaços exclusivamente masculinos, expunha-se pessoalmente às críticas sempre buscando chamar a atenção da sociedade para as desigualdades e injustiças”, resume bem Marques (2009:454).

Leolinda Daltro morreu em junho de 1935 em um acidente de automóvel.

A escritora Cora Coralina, moradora da casa do Rio Vermelho, cujas margens Daltro percorreu, ao visitar uma exposição organizada por ela na Escola Orsina da Fonseca em 1911, escreveu:

“Afigura-se-me ela a mais extraordinária das mulheres que tem viajado [...] Leolinda Daltro não percorreu a vetusta Europa em vilegiaturas convencionais, não atravessou longos mares na confortabilidade dos transatlânticos modernos para pisar a “Terra Santa” já tão pisada e beijar as relíquias já tão beijadas e banalizada pelas explorações dos “turistes”, nem tampouco transpôs o Himalaia ou atravessou desertos em alguma caravana árabe [...]

Fez tudo isso – e mais do que isso – palmilhou toda a vasta zona do Brasil central, mais ignorado que o interior da Mongólia, atravessou rios desconhecidos, subiu e desceu montanhas, penetrou espessas florestas [...] (CIB:606)”.




Referências bibliográficas

Butor, Michel. Le génie du lieu. Paris: Grasset, 1958.

Daltro, Leolinda. Da catechese dos indios no Brasil. Rio de Janeiro: Typ. Escola Orsina da Fonseca, 1920 [CIB]

____________. Inicios do feminismo no Brasil. Rio de Janeiro: Typ. Escola Orsina da Fonseca, 1918 [IFB]

Cagliari, J.Mauro O indígena e a República. SP:Huicitec, 1989.

Kaplan, Caren. Questions of Travel. Duke University Press, 1996.

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Nota: Todas as fotografias são do livro de Daltro, Da catechese dos índios exceto a da passeata de 1917 que se encontra com este mesmo título em google imagens.

Este texto foi publicado na revista Labrys 19 (www.labrys.net).

 

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