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Délia

Memorial da pesquisa

Norma Telles

O incentivo à pesquisa da obra de Maria Benedicta Câmara Bormann, que assinou seus textos com o pseudônimo Délia, seguiu-se a leitura de um de seus livros, no final dos anos oitenta. A indicação de leitura me foi feita por Maria Lucia Barros Mott, quem empreendeu e publicou as primeiras e detalhadas compilações das brasileiras que nos últimos três séculos refletiram, escreveram, trabalharam, seguiram carreiras e lutaram em várias frentes pela afirmação das mulheres.

Eu terminava então meu doutorado, em 1987, sobre escritoras brasileiras do século XIX, e o livro recomendado veio a calhar, tanto assim que modifiquei o esquema da tese para introduzir um capítulo sobre Bormann e seu livro Lésbia, um romance sobre a vida de uma escritora no Rio de Janeiro no final do século XIX. As condições que oferece como possibilidade de uma vida criativa e afirmativa para uma mulher de talento são as mesmas sobre as quais Virginia Woolf discorreu, três décadas mais tarde, em seu livro clássico, Um quarto só seu. Essas condições são liberdade financeira, educação, um local próprio onde trabalhar sossegada, ao que a brasileira acrescenta, liberdade amorosa.

Na época de minha pesquisa, o único exemplar conhecido do livro de Bormann pertencia ao bibliófilo Erich Geimeinder que generosamente o emprestou para que fizesse as leituras que achasse necessárias, e que foram muitas seguindo o ensinamento de Bachelard que aconselha a ler no mínimo umas dez vezes um texto. Posteriormente, Greimander consentiu que o livro fosse microfilmado, tornando-se assim matriz para uma re-edição da obra em 1998 pela editora Mulheres.

A partir de meu envolvimento com a escritora segui pistas, indícios, boatos em busca do que Bormann/Délia escreveu, tentando também mapear alguns episódios de sua vida. Foram anos a fio em torno de antigos jornais, fotocópias, buscas em sebos; atrás dos títulos mencionados nos dicionários bibliográficos. A década de noventa passou depressa entre a procura e as cópias dos livros, contos e crônicas encontrados principalmente na Biblioteca Nacional, no Gabinete Português de Leitura, no Instituto Histórico Geográfico do Rio de Janeiro e no de São Paulo, no Ministério da Guerra, no Instituo Genealógico do Rio de Janeiro, além de arquivos Metropolitanos e da Cúria. Os obstáculos foram muitos, enredam uma novela de acertos, mas também de direções enganosas, falta de material técnico - o que exigiu longos meses de cópias manuscritas; alguns becos sem saída. O que encontrei, sobre a vida e da escritora está sendo mostrado aqui e seus livros e contos serão disponibilizado, gradativamente mês a mês, neste sítio.

Carla Cristina Garcia desde cedo participou desta pesquisa. No Rio fez várias incursões as bibliotecas, repartições e arquivos recomendados por Plinio Doyle e contou com ajuda de Mario Luz então bibliotecário chefe na Biblioteca Nacional. Mais tarde, encontrou na biblioteca José Mindlin uma antiga publicação, Almanach Luso Brasileiro de 1897, com a fotografia de Bormann que está na primeira página desta seção.

A pesquisa é parte de um projeto mais amplo no qual me envolvi desde o doutorado. A presença criativa das mulheres no espaço da cultura brasileira, nas últimas décadas do século XIX, teve impacto e efeitos sobre os campos da atuação política e do conhecimento. O trabalho construtivo passa, indica Birulés, pela relação que se deve entreter com o passado enfatizando maneiras de transmissão a partir de uma determinada aposta em fragmentos que tirados de seu contexto e reordenados, surgem com vigor e pensamentos novos adquirindo força sobre o presente. Os fragmentos podem sempre ser re-arranjados em incontáveis e infindáveis bricolagens. Podem ser combinados e recombinados e foi isso que as escritoras que examinamos, de quem recuperamos a memória e analisamos a escritura, Bormann especialmente, nos ensinaram. Mostraram como ir abrindo novos caminhos através de brechas e veredas estreitas.

Eu terminava então meu doutorado, em 1987, sobre escritoras brasileiras do século XIX, e o livro recomendado veio a calhar, tanto assim que modifiquei o esquema da tese para introduzir um capítulo sobre Bormann e aquele seu livro, um romance sobre a vida de uma escritora no Rio de Janeiro no final do século XIX. As condições que oferece como possibilidade de uma vida criativa e afirmativa para uma mulher de talento, são as mesmas sobre as quais Virginia Woolf discorreu, três décadas mais tarde, em seu livro clássico, Um quarto só seu: liberdade financeira, um local próprio ao que a brasileira acrescenta, liberdade sexual.

DÉLIA

Maria Benedicta Bormann da Câmara Lima nasceu em Porto Alegre em 25 de novembro de 1853, filha de Patrício Augusto da Câmara Lima (1808-1892) e de Luísa Bormann de Lima (?-1903). A menina herdou o nome da avó paterna, Maria Benedicta Correia Câmara, filha dos primeiros Viscondes com Grandeza de Pelotas, casada com o General Hipólito de Lima, Reposteiro da Real Câmara por alvará de 1810. Maria Benedicta teve uma irmã, Julieta e dois meio irmãos do primeiro casamento de seu pai: Patrício Câmara Lima (1828-1902) e Frederico Augusto da Fontoura Lima (?-1908). Em 1863, a menina estava com uns dez anos quando a família mudou-se para o Rio de Janeiro e se fixou no antigo centro histórico, área ainda respeitável, habitada por comerciantes e pequenos funcionários. O pai de Maria Benedicta, Patrício Augusto, era funcionário público, conferente da Alfândega da Corte segundo os documentos.

No dia 7 de dezembro de 1872, Maria Benedicta Bormann da Câmara Lima casou-se, na Igreja de Santa Rita, por volta das seis horas da tarde, com seu tio materno, José Bernardino Bormann (1844-1911). Ele era Capitão da Infantaria, fizera todas as campanhas do sul e a Guerra do Paraguai tendo recebido inúmeros elogios e medalhas. O capitão José Bernardino cursara a Escola Militar onde, em 1872, ano de seu casamento, se graduara como bacharel em Matemática e Ciências Físicas. Em 1874, seguiu ele para o sul como membro de uma comissão de engenheiros militares; ele sempre foi tido como engenheiro hábil. Ocupou cargo no gabinete do Ministério do Duque de Caxias e, em 1877, foi comissionado na Europa. Neste mesmo ano participou do grupo que fundou a colônia de Chapecó da qual se tornou diretor em 1884, tendo permanecido no posto durante quatorze anos. Mais tarde foi por duas vezes governador do Paraná. Foi também chefe do estado maior do exército e, em 1909, Ministro da Guerra. Viúvo, em 1895, aos cinqüenta e oito anos contraiu matrimônio com Ana Vera Monteiro, de dezoito. Nos dois casamentos não teve filhos.

O casamento entre tio e sobrinha era comum não só no Brasil de então como também na família. O pai de Maria Benedicta tivera dois filhos ao que tudo indica com uma parenta. Um deles, Frederico Augusto, casou-se com a sobrinha Glória, filha do irmão Patrício Augusto. Outro primo, membro importante do Partido Liberal, senador e herói da Guerra do Paraguai, o general Câmara, também era casado com uma sobrinha. Ele foi um republicano histórico nomeado governador do Rio Grande do Sul pelo marechal Deodoro logo após a proclamação da República.

Maria Benedicta Câmara Bormann, como passou a se chamar pelo casamento, residia quando de suas núpcias na Rua do Resende 48, com os pais. Nesta mesma casa faleceu. No sobrado de três quartos, duas salas, assoalhado e com quintal, também faleceram seu pai, sua mãe e uma sua cunhada, Eufrásia Virginia de Fontoura, em 1885, segunda esposa de seu meio irmão Patrício. Entre o casamento e a morte de Maria Benedicta não consegui apurar onde residiu, como foi sua vida. O sobrado da Rua do Resende ainda existe (foto) e é, desde 1934, uma repartição pública. Antes disto, a casa de duas janelas e portas, rente à rua, com azulejos na fachada, foi o endereço de uma personagem de Bormann/Délia, Celeste, do livro do mesmo nome, de 1893:

“Daí a dias, achava-se Celeste instalada com Bá em uma bonita casinha à rua do Resende [...] ali criou uma nova existência, isolada, é certo, porém livre de falsas amizades e de fingidos protestos [...] (ali) releu todos os livros que tinha e comprou ainda diversos para entreter-se [...] também levava ao piano horas a fio tocando tudo quanto escreveram os mestres [...] ou com as mãos atrás das costas, passeava, passeava pela casa toda e assim andava léguas (capítulos XI e XII)”.

Nanci Egert ressalta, na introdução que faz para a re-edição de Celeste, em 1988 pela editora Presença, a atualidade da personagem e dos temas tratados no romance e lembra que mesmo na época de sua publicação, o livro foi bem recebido pelo público, teve tiragem de mil exemplares e posterior publicação em folhetim.

Os poucos dados biográficos sobre Bormann são pinçados de comentários da época que dão conta que ela escrevia desde mocinha, selecionava seus textos destruindo os que não lhe pareciam bons. Dizem também que desenhava bem e cantava com linda voz de mezzo-soprano. Se a música estava presente em sua vida, o canto lírico e a ópera - que conheceu dias de glória no Rio de Janeiro durante o Segundo Império - estão presentes também em seus livros e contos breves. Sacramento Blake, Sabino e Oliveira contam que além da educação esmerada falava várias línguas, o que aparece em seus escritos. Bormann completou sua educação formal aprofundando os estudos e fez a maioria de suas heroínas, ao contrario das personagens da época, ser também preparadas e estudiosas.

Andradina Oliveira e Ari Martins dizem que Maria Benedicta se separou do marido, porém, pelo que se verifica nos documentos, ao contrário da informação sobre a irmã Julieta que se divorciou aproveitando a lei de 1891, ela consta como casada na certidão de óbito. Talvez esta idéia tenha surgido por causa da longa permanência de José Bernardino em Chapecó e outras missões onde não se sabe até agora se foi ou não acompanhado pela mulher. Esse período coincide com os anos em que ela mais publicou no Rio de Janeiro, então é possível supor que não estivesse junto dele. Comentadores da época dizem que foi aventuroso e errante o seu viver e que ela foi infeliz. Mas isso é tudo, os detalhes ficaram nas sombras das lembranças de alguns seus contemporâneos ou em confusões entre as personagens e escritora sendo importante lembrar que Bormann/Délia várias vezes afirma explicitamente que as suas histórias misturam fatos vividos e ficção mais os fatos da imaginação, e alertou para que não se confundisse as personagens e a vida da autora, de artistas.

Maria Benedita Câmara Bormann escolheu o pseudônimo Délia para sua carreira literária. A escolha indica um novo batismo, um nascimento para uma outra vida e também elementos de um projeto próprio como indico em outro texto. Délia escreveu durante dez anos nos principais jornais do Rio de Janeiro. Começou em O Sorriso, publicação da qual encontrei um único numero, e pertencia, segundo Egert, a José Bernardino Bormann, entre outros. José Bernardino também foi escritor de romances primeiro e depois de livros de história, especialmente sobre a guerra do Paraguai. Isto indica que o marido não se opunha ao menos nesta fase, a que a esposa escrevesse.

Depois ela Passou pelo Cruzeiro, do qual ele também participava, onde firmou vários contos breves e os folhetins mencionados pelos dicionários: Estela e Estrelas cadentes (1882). A seguir foi para a Gazeta da Tarde, de José do Patrocínio, para a Gazeta de Notícias, de Ferreira Araújo e ainda para O Paiz, com Quintino Bocaiúva, todos eles jornais abolicionistas e republicanos. Em 1895 “Mylady”, sua última história pouco antes de falecer saiu em A Notícia. Consta como tendo publicado em livro Aurélia, Angelina, Estátua de Neve e três romances – Uma victima, Duas irmãs, Magdalena – publicados em volume único pela Typographia Central de Evaristo Costa em 1884. Em 1890, saiu Lésbia, o livro que tem como personagem principal uma escritora no Rio de então. Até 1892 continua em O Paiz e no ano seguinte publica outro livro, como vimos acima, Celeste que sai em folhetim em A Notícia em 1894. Publicou também em vários jornais de propriedade de mulheres poetas, jornalistas, escritoras, como, por exemplo, a Familia, de Josefina Álvares de Azevedo, A Mensageira, de Priciliana Duarte, entre outros.

O conto breve permitiu a ela, como a outras escritoras brasileiras ou européias e americanas do norte naquele período, fazer experimentações com a linguagem, com marcações para transcursos de tempo, emprego de outros recursos como a mistura de elementos de ficção, didatismo, onirismo. O tema central que tratou foi a mulher definida por ela mesma, não pelos textos masculinos ou pelos positivistas que só lhe ofereciam o papel de mãe dedicada ao lar e aos seus, sem vontade ou história própria. Para desafiar padrões de conhecimento e de moralidade era também preciso desafiar noções correntes de saúde, enfermidade e ‘nevrose’, termo típico dos naturalistas, muito empregado por Bormann que Sabino chama de “Zola de saias”, título que em um livro ela rebate, não pensa ser adequado para si que não se fixa em escolas.

O espaço de liberdade para as suas protagonistas é sempre distante do espaço do casamento e o distanciamento permite que sejam expostas as hipocrisias que encobriam a instituição do matrimônio burguês. Questões de gênero e de raça e de classe permeiam os escritos. A falta de preparo, e de educação para o mundo, é apontada como causa dos desacertos sentimentais das moças, e a escritora chega mesmo a sugerir que as jovens deveriam receber educação sexual.

Maria Benedicta Bormann morreu na casa da Rua do Resende, em junho de 1895, aos quarenta e dois anos de idade, de úlcera no estômago. Não deixou descendência.

Destaquei alguns temas dos romances e contos breves de Bormann/Délia. Com o passar dos anos eles foram se tornando raridades bibliográficas e a autora caiu em um esquecimento que não foi total por causa de jovens entusiastas como Geimeinder que a partir de uma pequena noticia sobre o livro, em 1946, procurou durante mais de vinte anos até encontrar um exemplar de Lésbia e trazê-lo de volta às estantes de leitura e às conversas da vida. Outros autores colecionaram referências e informações sobre Délia, dona de prosa instigante, estilo terso, linguagem burilada que mistura realismo, naturalismo, sonho e visões. O esquecimento, diz o poeta mexicano Octavio Paz, é uma forma de censura, por isso é auspiciosa a possibilidade de disponibilizar os contos e romances dessa escritora livres da poeira acumulada durante anos nas bibliotecas. Centrei meu trabalho no estudo das obras e não na vida da autora.

O título da coleção desses escritos deriva de uma menção de Sabino que diz não ter sido depositada nenhuma rosa no túmulo de Maria Benedicta Bormann quando de seu funeral. Carla Cristina Garcia e eu tentamos colocar rosas sobre a lápide, mas na balburdia do cemitério moderno seu túmulo não foi encontrado, permanece meio a brumas, tão misterioso quanto foi a vida da escritora. As flores que amealhei para oferecer para Délia são suas próprias obras que encontrei pelos caminhos da pesquisa e reuni nesta coleção Rosas de Leitura.




 

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