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Marguerite Duras: Moderato Cantabile

Norma Telles

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Marguerite Duras © Jean-Paul Guilloteau

Hoje com 71 anos, a escritora francesa Marguerite Duras tornou-se conhecida do grande público com o romance O Amante, de 1984, recentemente traduzido no Brasil (ISTOÉ n9 435). Mas já há quase três décadas a autora é reconhecida pela critica como uma das maiores escritoras contemporâneas de língua francesa. Moderato Cantabile, de 1958, foi o livro que a projetou e é importante por ter introduzido um gênero: o noveau roman, uma escola literária que se impôs.

Dois anos mais tarde, Marguerite Duras escreveu o roteiro do filme Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais.

O que quer dizer moderato cantabile?, pergunta uma impaciente e rígida pro-fessora de piano a uma criança teimosa. Obstinada, a criança responde que não sabe. Mas sabe – quando quer, sabe – que quer dizer moderado cantante, o ritmo da sonatina que deve tocar ao piano. O menino não gosta das aulas. A mãe se orgulha, sonhadora, da rebeldia do filho. A relação entre os dois é amorosa, cúmplice. Numa sexta-feira, a aula de piano é interrompida por um grito que, vindo de um café próximo, traduz o drama de um casal – um crime passional. Esta trama faz Anne, a mãe, avançar além de seus limites. “Não estou acostumada a ir tão longe de casa…”, dirá depois a um desconhecido que encontra naquele café. Os dois retornam várias vezes ao cenário do crime.

Este é o núcleo da narrativa: os encontros desencontros de um casal absurdo – Anne, a burguesa, e Chauvin, o operário – em diálogos obsessivos sobre o erotismo e a morte. Ajudados pela lucidez trazida pelo vinho, eles esboçam diante de nós a cidade. o porto. o estaleiro. Vemos o bar, os operários. a mulher, os corredores e espaços do cotidiano. Há uma tensão crescente e di-fusa em torno do casal. enquanto Anne e Chauvin vão reconstituindo o percurso que foi do amor à violência e entrelaçam suas vidas aos diálogos, até o clímax final. “Gostaria que você estivesse morta”, diz ele. “Estou morta”, retruca ela. É o crime de paixão que se repete, agora sem arma e sem sangue, no âmago das personagens. O tempo todo a criança, liberta, brinca ao ar livre.

Mas que o leitor se acautele. A edição é bilíngue. Isto significa tropeços na leitura, quando, ao virar uma página, embebidos na história, depara-mos com a barreira de uma outra língua. Ou nos deixamos levar pela narrativa ou prestamos atenção à paginação. Impossível fazer os dois movi-mentos ao mesmo tempo. Pode-se supor que a linguagem poética da autora levou os editores brasileiros a considerar importante o cotejo do original francês com a versão em português. Foi, porém, uma ideia infeliz como realizada. Perde-se o moderado cantante. Fica-se com um staccato, separação prolongada do texto, pausa para reorientação que transforma em engano o fascínio, o encantamento. Este livro belíssimo não merecia estas interrupções.

IstoÉ 24/07/1985

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